Talvez não fosse esse o objetivo inicial desse blog, mas, pelo menos enquanto durarem as férias, de vez em quando vou postar alguns textos que eu escrevo. Eles são bem estranhos já aviso. São pequenas narrativas, quase como crônicas. Sempre fui uma criança com excesso de imaginação, e pro vestibular acabei aprendendo um pouco sobre como escrever crônicas e narrativas não muito longas.
Melhor parar de falar e deixar uma para vocês lerem ^^
Sentia-se um inseto. Trancado naquele quarto escuro, empoeirado, sozinho, condenado a esperar as horas passarem sentado na cama. O velho álbum de fotografias apoiado nas pernas lembrava-o do passado. Passado no qual viajara com a esposa, brincara com o filho, fora seu herói, seu super-homem.
Aquele retrato, dos três sentados sob um guarda-sol em cadeiras de plástico na praia, não mostrava as duas noites que passara em claro, uma tentando acalmar o filho que, por ser a primeira viagem, não conseguia adormecer e outra com o menino nos braços, febril, porque o desobedecera e tomara muito sol. Como ele amava o “pestinha”.
O porta-retrato sobre o criado-mudo com o filho sorrindo e mostrando orgulhoso medalha ganhada no futebol, retrato que desde que fora tirado acompanhava o pai no trabalho. Somente ele sabia que atrás daquele sorriso escondiam-se noites mal dormidas pela ansiedade das partidas e todas as lágrimas copiosamente derramadas após cada derrota. O sorriso. O sorriso do menino do retrato. Como este havia mudado.
A passagem do tempo estava marcada em cada traço daquele rosto velho. O processo de deterioração do físico havia acelerado após a morte da esposa. De certa forma refletia a dilaceração de seus sentimentos.
Logo após a morte da mulher viera morar com o filho e a nora. Segundo o filho era para não ficar sozinho. Sabia, no entanto, que fora tirado às pressas de sua casa e jogado naquele quarto mal iluminado porque o comprador da casa queria mudar-se o mais rápido possível.
Desde que ali chegara tinha por companhia apenas os álbuns de fotografia e alguns velhos livros. Durante o dia a casa ficava sob os cuidados da empregada já que o filho e a nora trabalhavam. No dia em que se mudara a empregada tratou logo de avisar que não era paga para cuidar de velhotes gagás.
Certo dia a moça decidiu que a presença dele na sala atrapalhava-a na limpeza e perguntou ao patrão se poderia trancá-lo no quarto para evitar que ele sujasse onde ela já havia limpado. Como se estivesse apenas escolhendo a carne do almoço, ele disse que não havia prolemas desde que o soltasse para ir ao banheiro. Simplesmente não pôde acreditar que o seu “guri” dera aquela resposta, muito menos com tanta casualidade na voz.
Desde que passara a ficar trancafiado começou a ler os poucos livros empoeirados esquecidos em seu quarto. Era como ter amigos fiéis. Gostava, principalmente, de Gregor. Algo no sofrimento do rapaz fazia-o identificar-se.
Na calada da noite ouviu o barulho de carro estacionando em frente a casa. Escutou alguém destrancando a porta da frente. Quem entrava já era aguardado. Vozes na sala. Minutos depois a porta de seu quarto era escancarada. Com o susto, derrubara o porta-retrato, que se estilhaçou no chão. Dois homens fortes, vestidos de branco entraram e o agarraram a força. O último vislumbre do cárcere foi a foto do futebol, desfigurada pelo vidro quebrado.
O filho aguardava os homens ao lado da porta aberta. Evitou o olhar do pai enquanto este era levado para a ambulância. Quando as portas foram fechadas, ele se sentou no banquinho, tendo a certeza de que nunca mais veria seu menino.
Sentiu-se atingido pela maçã do envelhecimento. Talvez ela apodrecesse depressa e sua morte fosse menos sofrida que a do amigo Gregor Samsa., este, aliás, ficara sobre o criado-mudo.
Para quem não conhece a história do Gregor Samsa: A Metamorfose - Franz Kafka
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