Talvez este seja um dos posts mais melosos deste blog, mas de alguma maneira mexeu tanto comigo que não há como não falar.
Já tive inúmeras provas na minha vida de que damos maior valor às pessoas que amamos quando às perdemos, ou quando estamos prestes à perdê-las. Isso aconteceu no ensino fundamental, eu demorei oito anos praticamente para descobrir o quanto eu podia ser feliz ao lado daquelas pessoas, quando eu descobri e estava muito feliz, aproveitando cada momento eu tive que dizer adeus. Talvez esse tenha ido o momento mai difícil da minha vida. Ter que escolher entre a razão e o coração, entre um futuro e a família que eu tinha recentemente descoberto.
Depois de tomada a decisão me restava viver os últimos momentos daquela felicidade tão bonita, tão suprema... Eu procurei guardar em mim cada um dos abraços, dos sorrisos, de tudo o que acontecia, para me lembrar do tanto que foi bom. É muito difícil você aproveitar uma coisa boa, sabendo que esta é a última vez que você fará isso sem enlouquecer. Não importava quantas vezes e quantas pessoas me falavam que tudo continuaria sendo como antes, que isso só dependeria de nós, eu sabia que não era verdade, que tudo acabaria naquela festinha de despedida com amigo secreto... e em vários aspectos eu estava certa.
Já o final do ensino médio foi menos traumático. Talvez eu nunca tenha aprendido a me sentir em casa lá... talvez o tempo tenha sido suficientemente pequeno para que eu não me apegasse muito. Sem dúvidas no final do terceiro ano eu já estava começando a a me apegar, mas não houve tempo de doer tanto, de significar tanto. Talvez porque eu soubesse que realmente haveria uma continuidade com as pessoas com as quais eu realmente me apeguei. Das outras eu senti uma certa falta, afinal eu estava começando a me acostumar com elas, começando a aprender a gostar delas, talvez até pudéssemos ter tido uma amizade legal, mas não houve tempo...
Outra despedida importante a minha vida foi me desligar das meninas do Ballet, mas eu só percebo o quanto isso dói hoje. Este foi um dos desligamentos mais estranhos que eu tive, porque eu não o vi acontecendo. Por ser mais nova que a maioria das meninas eu as vi dizer adeus antes que eu o fizesse.
Aos poucos um ia fazer cursos em outra cidade, a cada ano era uma que saia por causa do vestibular e a coisa toda aconteceu de uma maneira que eu não fui percebendo que tudo estava se desmanchando. Talvez eu só tenha percebido isso quando eu fui para a faculdade e percebi que não havia mais minhas amigas para rir comigo, fazer besteiras, ir no Pão de Açúcar, nem a minha professora para fazer a gente ensaiar e tudo mais... Nem no último ano, quando eu estava praticamente sozinha na turma (sem conhecer as meninas e talz) foi tão difícil, porque eu conhecia algumas, porque a minha professora estava lá e de alguma maneira aquilo fazia as coisas parecerem normais.
Hoje muitas vezes eu me pego pensando em como tudo aconteceu e não consigo me lembrar, parece que eu estava anestesiada. Eu sabia o quanto eu amava aquilo tudo e o quanto foi importante para mim e o fato de que eu não vi quando perdi tudo isso me deixou muito mal, fazendo com que eu prestasse mais atenção ao rumo que as coisas e às pessoas tomam em minha vida, para que isso não aconteça novamente.
Quando eu entrei na faculdade minha mentalidade era mais ou menos de fazer aquilo valer a pena. Conhecer as pessoas, fazer amigos, ser diferente do que eu era, praticamente uma chance de começar minha vida de novo. O próprio convívio excessivo com as pessoas que a faculdade proporciona (aulas de manhã, almoçar junto, aulas a tarde, trabalhos, pessoas morando sozinhas e sem ter muitos amigos...) fez com que eu me apegasse muito rapidamente à algumas pessoas. Foi tudo tão rápido que quando eu vi já estava difícil me separar deles.
Talvez o que mais me mate na faculdade seja esse sentimento de nunca estar inteira, estou sempre com saudade, porque eu amo muito as pessoas da minha cidade, amo minha cidade, amo estar aqui, rever aqueles que eu pouco vejo, fazer as coisas que eu adoro e que só tem aqui, estar num lugar onde eu me sinto segura, literalmente em casa. Porém quando estou aqui, estou com saudades daqueles que estão longe, dos meus amigos da faculdade, das pessoas que se tornaram importantes para mim.
Embora eu não tenha uma grande amizade com muitas pessoas, foi bem estranho ver o pessoal indo para a França fazer intercâmbio. Saber que eu vou passar dois anos sem vê-los quase todos os dias, por menos que eu tenha convivido com a pessoa, sempre sobra esta lacuna. É algo bem triste para mim, ver as coisas se desmanchando, relações entre pessoas que poderiam formar bonitos aços sendo testadas e muitas vezes desmanchadas assim... é curioso como a vida muda o rumo das pessoas, como as situações se alteram e vemos tudo isso passando diante de nossos olhos sem poder fazer nada, sabendo apenas que este é o curso natural de tudo...
Mas a parte mais difícil é se despedir daquelas pessoas que você ama, daquelas que você vê e conversa todos os dias, sobre tudo, daquelas que estão ao seu lado sempre, com quem você divide parte de sua vida. É sempre uma hora bem difícil pra mim, e fato eu sempre termino chorando, por mais que eu saiba que esta é uma reação extremamente boba. Instintivamente, quando eu sei que vou passar muito tempo sem ver uma pessoa que eu gosto, eu procuro gravar cada segundo ao lado dela de uma maneira bem sólida na minha memória. Eu procuro gravar seu toque, o calor e a força do seu abraço, suas palavras, os traços do seu rosto, do seu sorriso, como uma maneira de saber que eu não vou esquecer do quanto aquilo é bom, uma maneira de tranquilizar meu coração, de que eu não deixei de falar e mostrar para ela o quanto ela é importante para mim. Isso talvez venha exatamente da experiência de ter perdido coisas valiosas sem notar, de saber que as coisas dificilmente votarão a ser as mesmas, de que talvez aquele momento com aquela pessoa seja realmente o último.
Eu sei que isso me destrói por dentro, eu sofro horrores por dentro antes mesmo de tudo acontecer, é um sofrimento antecipado muito dolorido. Mas, creio que, o pior de tudo é o quanto acabo me martirizando depois. Eu fico olhando fotos, contano as horas, me maravilhando do passar do tempo, como incrivelmente eu estava com aquela pessoa, tirando aquela foto, ou fazendo tal coisa de manhã, e agora não estou mais, e como parece ter passado uma eternidade entre as duas coisas.
Eu não sei mais o que eu posso fazer para anestesiar tudo isso, diminuir essa dor... eu só queria me sentir inteira, completa, com todos ao meu lado, por pelo menos um dia, descobrir de novo como é não uma pessoa dividida, não ter meio coração batendo, meio coração sofrendo...
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